quinta-feira, 19 de junho de 2014

González vs. Estivill (faz de conta que é sobre eles)

O blogue "Pais de Quatro" tem, de tempos a tempos, umas discussões interessantes lançadas pelo JMT, mas que aquecem mesmo é na caixa de comentários. Na maior parte das vezes, eu opto por não entrar na guerra. Hoje, quis comentar.

Primeiro, iniciei um comentário em resposta a uma sequência de comentários, mas como só queria referir um pormenor, e não entrar na totalidade da discussão daquela sequência em particular, mudei para um comentário ao post, "independente" de comentários anteriores. Depois, como percebi que me apetecia escrever muito, decidi vir aqui escrever (aliás, copiei o que já tinha escrito para me servir de base a este post, e não ter de escrever tudo outra vez). A seguir, vou ao PdQ e deixo o link num comentário. Quem quiser ler, sabe o que fazer. Se @ leitor@ que me lê neste momento fez isso, fez muito bem e seja bem-vindo!

Tenho três filhos. Nunca li nada (exceto as entrevistas - obrigada, JMT, pelos links, aqui e aqui) de nenhum dos dois pediatras espanhóis. Só li uns livros que me emprestaram (lembro-me de um que foi escrito por uma "baby whisperer", não me lembro é do nome do livro*), não necessariamente de ponta a ponta.

Concordo que os bebés choram por alguma razão, e não porque querem fazer os pais "penar". Não concordo é que se considere que ficar ao pé do bebé, fazendo-o sentir-se acompanhado, mesmo que depois a pessoa se ausente por momentos (não enquanto o bebé chora - pelo menos na entrevista o Dr. Estivill diz que não se abandona o bebé enquanto chora), seja "deixar os bebés chorar porque isso é para o bem deles".

E por que razão digo isto?

Porque se está assumir que, quando o bebé chora, automaticamente pararia de chorar se lhe pegássemos ao colo e que, se não o fizermos, estamos a "deixá-lo chorar". E isso não é verdade: umas vezes para de chorar, outras vezes não (e nós vemo-nos e desejamo-nos para perceber o porquê do choro). Por isso, se pegar ao colo nem sempre "resulta", por que é que estar ao lado do bebé, falando calmamente com ele, há de ser uma coisa má, se o bebé se acalmar? Por que é que se diz que, se o bebé deixa de chorar, não o faz porque o acompanhamento foi suficiente para não precisar de chorar, mas sim porque "aprende que não vale a pena chamar os pais" (não é uma citação propriamente, mas foi uma ideia que captei de um comentário a este post do PdQ)? Porquê? Não percebo.

No meio disto tudo, cabe-me agradecer a quem me emprestou o tal livro da "baby whisperer", pois foi muito útil - e recomendaria, se me lembrasse do nome...* [Já devem ter percebido que já sei qual é o livro...]

No caso da Vassoura, da Varinha e do Feitiço, eles foram muitas vezes pegados ao colo, não exclusivamente quando choravam. Se um bebé só for pegado ao colo quando chora (exceção para as atividades de manutenção - passe a expressão), não admira que chore muito para ter colo e que todas as outras alternativas para o acalmar não funcionem!

Mas a Vassoura, a Varinha e o Feitiço também choraram e não receberam colo. Foram atendidos, mas nem sempre com colo. O colo é como uma carta valiosa num jogo de cartas. Se puder ganhar a jogada com uma carta mais baixa (falar calmamente com o bebé; fazer-lhe festinhas; pôr-lhe a chucha se ele a usar; etc.), não faz sentido usar a mais valiosa - essa será preciosa quando a fasquia estiver num patamar superior, nesse dia ou noutro. Porque se pego ao colo por um choro qualquer (o livro ajuda a distinguir os diferentes tipos de choro), tudo o que não for colo será sempre insuficiente!

Outra coisa: os terrores noturnos [não confundir com pesadelos]. Como mãe, tive essa experiência, com os três, mas mais com a Vassoura. E, pelo que li e pela minha experiência, não adianta dar colo, aliás, não adianta fazer nada, pois os terrores noturnos têm esse nome por serem um terror... para os pais! As crianças não vão ter qualquer memória do que aconteceu, vão acordar frescas que nem uma alface, porque, apesar da gritaria, não acordaram sequer! Eu cheguei a tentar "consolar" a Vassoura, e mais tarde, a Varinha, mas fui enxotada mecanicamente, por ambas, pois estava a perturbar-lhes o descanso... No caso do Feitiço, já estava mais esclarecida...

Como é que eu sei que os meus filhos não ficaram traumatizados pelas vezes que não lhes peguei ao colo, mas os atendi de outro modo?

Como é que eu sei que não pararam de chorar porque "aprenderam que não valia a pena chamar pelos pais"?

Porque os meus filhos são crianças confiantes e outras coisas do género? Também (embora tenha consciência que eles não são confiantes em todas as situações)... mas sobretudo...

... porque continuam a chamar-me durante a noite, se precisarem, e eu vou lá.

... porque, agora que são mais crescidas (o Feitiço ainda não chegou a esta fase silenciosa de chamar), a Vassoura e a Varinha aprenderam que me podem chamar a meio da noite, mas não precisam de gritar, para não acordarem toda a gente da casa. Chamam-me, e esperam um pouco, para me darem tempo de acordar e ir do meu quarto ao deles e, se eu não aparecer, repetem... até eu aparecer. [Às vezes estou mais cansada e demoro mais a acordar.]

Não creio que aprender a ter os outros em consideração seja uma coisa má.

*Não me lembrei entretanto, mas uma rápida pesquisa ajudou. O livro era este:


8 comentários:

  1. Uma leitora - Maria - leu este post e respondeu, mas fê-lo no "Pais de Quatro". Informei-a que iria copiar a resposta e colá-la aqui. É o que segue:

    "Não entendo a vantagem de se acalmar um bebé ao lado dele sem lhe pegar ao colo?
    Já agora podemos só assobiar-lhe do corredor e dizer que está tudo bem! Ou se formos dado a acrobacias, podemos saltar ao pé coxinho ao lado berço para ver se funciona!

    Ou será que se "habitua ao colo"? Geralmente acalmam-se desta forma logo quando nascem, pelo que não faz muito sentido a teoria da habituação!

    E pelos vistos a nossa experiência com bebés é bem diferente..na minha é trigo limpo farinha amparo: colo e/ou maminha e já passou! Ui, quando uma destas não funciona...esperemos que esteja tudo bem...
    Conhecer um bebé que se acalme melhor com alguém de pé ao lado dele a falar, isso é que nunca presenciei!

    Aliás, só para lançar mais umas ideias, as culturas onde os bebés mais são carregados junto às mães, são também comprovadamente aquelas em que choram menos! Porque será?

    Também é verdade que não vejo a coisa como um jogo de cartas...( são perspectivas!)..." Eh pah é melhor só dar 20 beijinhos por dia, senão quando tiveres doente tenho de dar 40 para compensar!"

    É importantíssimo ter os outros em consideração! Um bebé de 2 anos é que ainda não pensa nessas coisas... É que ainda nem tem plena consciência de si próprio!"

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    1. Ora, a partir do que eu escrevi, a Maria deduziu muita coisa. Eu também posso deduzir muita coisa (porque para julgar os outros estamos todos habilitados): para começar, que a Maria entende que defender um ponto de vista com tanta intensidade só vale a pena se o blogue for muito conhecido e muito lido; caso contrário, teria escrito aqui a sua resposta (isso, seria, talvez, deitar pérolas a porcos), já que ao meu post dizia respeito.

      Deduzo ainda que a Maria não teve dificuldades em dar de mamar. Eu tive, nas três vezes, nas primeiras semanas e, por muito que às vezes quisesse resolver - ou tentar resolver - o choro pondo o bebé ao peito (era o que fazia uma das minhas irmãs, que não teve uma dor que fosse), não podia. Felizmente não desisti (estive por um triz, na primeira filha) e eles mamaram enquanto quiseram.

      Também posso deduzir que a Maria não é dada a acrobacias, porque se fosse já teria experimentado saltar ao pé coxinho ao lado do berço e teria visto que resulta mesmo, especialmente se se esfregar a barriga com uma mão, enquanto se bate com a outra na cabeça!

      Por último, deduzo que a Maria é tão obcecada com as suas ideias que não concebe que exista outra forma de educar que não seja a sua. Eu aceito perfeitamente que se pegue sempre num bebé ao colo, que isto, ou que aquilo, num leque abrangente de escolhas, não é por agir de uma certa maneira que vou menosprezar outras opções de quem ama e educa com o coração, mas com outra visão!

      P.S. - Uma vez que leu tantos livros, leia também o que referi no post (não sei se há em português). Recomendo!

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  2. Gabo-lhe a a paciência, Bruxa Mimi! :)

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    1. Nem sempre a tenho, mas obrigada pelas suas palavras!

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  3. Gostei muito de ler, "Bruxa" - perdoe as aspas, mas sem elas o seu sentido e o seu fortíssimo sentimento e intuição de maternidade ficaria deturpado...

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    1. Obrigada pela gentileza da sua visita e das suas palavras!

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  4. Para quando uma demonstração ao vivo da Bruxa Mimi a saltar ao pé coxinho enquanto esfrega a barriga com uma mão e bate com a outra na cabeça? Se isso cala um bébé? Aposto que até cala um adulto!

    ROFL

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- Posso fazer o meu comentário?
- Claro que sim, mas tendo cuidado com a linguagem.
Obrigada!